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Segundo o professor do Insper, Thomaz Conti, a pandemia provocada pela COVID-19 estabelece uma crise em três frentes: saúde pública, economia e comportamento.

O futebol está vinculado aos três e, no campo do comportamento, atravessa talvez a sua maior crise.

Para voltar à atividade, o esporte precisa restabelecer os treinos e construir um protocolo de atividades. Caso contrário, não sairá da inércia.

O futebol é um trem cheio de vagões lotados, e lento. Foi fácil parar, mas seu retorno requer cautela, tempo e atenção. Não apenas na condição física dos atletas, mas também o emocional precisa ser observado.

Entretanto, voltar a treinar para disputar competições exige que se responda a seguinte pergunta: em qual mundo o jogo será jogado: o do passado ou de um novo mundo, o do NOVO NORMAL?

O mundo esportivo do passado tinha a presença de torcedores, de financiamento abundante, do matchday (conjunto de ações no dia do jogo), da venda de atletas, dos valores da TV, do streaming e dos patrocinadores que buscavam visibilidade.

Esse mundo midiático levou a arenas cobertas construídas com enorme fomento estatal, para um público que nem sempre comparecia. Mas e no NOVO NORMAL, como será?

Provavelmente, os estádios com grande capacidade ficarão obsoletos. Representarão risco de aglomeração e, consequentemente, de disseminação do vírus.

Os estádios do futuro tendem a ser para público reduzido – isso se o público, de fato, puder voltar a freqüentá-los.

Se forem reabertos, haverá novas regras de distanciamento entre todos os envolvidos no evento. Provavelmente, as praças de alimentação ficarão interditadas. Camarotes lotados também serão proibidos.

Como será a nova relação da indústria do futebol, que hoje ocupa 1% do PIB nacional, através das transações de atletas, salários e demais contratos? Como ficarão os direitos de atletas? Além do Coronavírus, a aberração jurídica que deu a Paulo André (ex-Corinthians) indenização por jogar à noite e aos domingos deve contribuir para que surja um NOVO NORMAL.

Os contratos de patrocínio, que em boa parte passaram a exigir experiências e conteúdo, mais que a simples manutenção da imagem estampada em calções e camisas, também serão revistos. Haverá um novo pacto da riqueza e, sim, vai sobrar para o futebol.

Outro fenômeno é o papel das federações e confederações na proteção dos clubes e competições. O momento mostra quem de fato tem serventia. A CBF sinalizou com uma pequena ajuda financeira para federações e clubes da Série D. A entidade também trabalha intensamente para postergar os efeitos da inadimplência no Profut e tenta ajudar os clubes diante da absurda exigência de indenização de 100% em caso de rescisão dos atletas. Porém, diante do quadro de crise ainda age timidamente. É preciso avançar.

Outro fenômeno que deve surgir no NOVO NORMAL será a fusão de clubes e a incorporação societária. Para que isso ocorra será necessário avançar na lei do clube-eempresa ou até mesmo aprovar um novo marco nacional do futebol.

O Brasil respira futebol. Além do profissional, o feminino, as categorias de base e o enorme contingente de amadores precisam de amparo. Não poderemos ter uma divisão no esporte, entre os que ficaram no passado e os que estarão no NOVO NORMAL.

Nello Morlotti, economista, comunicador e ativista do Futebol Brasileiro