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Entenda a polêmica em torno da série da Netflix sobre massacre em escolas

Nessa última semana Netflix adicionou ao catálogo a sua série chamada Areia Movediça. A série é inspirada em um livro de mesmo título, cujo enredo gira em torno da investigação de um massacre que ocorreu em uma escola particular de elite em Estocolmo, na Suécia. Depois da tragédia que devastou todo o país, uma jovem chamada Maja Norberj é acusada pelo crime. A série trará a história do julgamento do crime, trazendo diversos flashbacks para mostrar o que aconteceu.


Muitos internautas acharam a abordagem do tema irresponsável e desrespeitosa.

O assunto não é novidade para o público norte-americano, pois os massacres em escolas são frequentes por lá, porém no Brasil recentemente não tem sido diferente – estamos a poucos dias de completar oito anos do massacre do Realengo. O caso mais recente, do massacre de Suzano no dia 13 de março, ainda está repercutindo intensamente, seja pelo medo que muitas crianças passaram a sentir de frequentar a escola, ou pelo inúmeros casos de ameaças de atentados semelhantes surgiram pichadas pelos banheiros de escola e universidades pelo país, aterrorizando pais e alunos. Mais perto de nós, teve o caso de Imbaú (PR), ondem três adolescentes desligaram o disjuntor do bloco e invadiram uma sala de aula usando máscaras e machados, causando pânico na noite da última quarta (3).

Por isso, com o anúncio do lançamento da série, muitos internautas começaram a levantar alguns questionamentos: É saudável deixar crianças e adolescentes assistindo cenas de violência em escolas como se fosse entretenimento ? Isso não poderia ser um “gatilho” (do inglês “trigger“, expressão comum para expressar este tipo de reação) para muitos potenciais consumidores? Séries como essa podem acabar incentivando adolescentes a cometerem esses crimes?

Em meio a esse debate a série Areia Movediça foi comparada a 13 Reasons Why, uma outra série da Netflix, lançada em 2017 e que gerou polêmica por se tratar sobre o suicídio de uma garota, e conter cenas explícitas e sem cortes. Desde então especialistas em saúde mental têm apontado para os possíveis riscos da personagem principal ser imitada pelos jovens espectadores, por conta de uma glamourização excessiva do ato. Muitos reforçam que existem outras técnicas cinematográficas para representar cenas como essas, e que a imagem da protagonista realizando cortes nos braços dentro de uma banheira foi desnecessária para a construção da narrativa e pode ter servido como exemplo para os jovens.

Vale lembrar que a OMS lançou uma cartilha com recomendações de como os jornalistas deveriam noticiar casos de suicídios na imprensa. De acordo com a cartilha, apenas dados relevantes devem ser apresentados e, nos jornais impressos, que seja noticiado apenas nas páginas internas. A OMS recomenda ainda que devemos nos referir ao fato como “suicídio consumado”, não como suicídio “bem sucedido”, e também que qualquer problema de saúde mental que a pessoa tiver seja trazido à tona e também que se evite exageros, como mostrar a cena do suicídio e o método utilizado. Na Nova Zelândia, a justiça proibiu a mídia de vincular imagens do rosto do assassino responsável pela morte de 50 pessoas em ataque a duas mesquitas, e a ministra da Justiça declarou que nunca pronunciaria o nome do atirador. “Ele buscou muitas coisas em seu ato de terror, entre delas a notoriedade – é por isso que você nunca me ouvirá mencionar seu nome”, disse.

Sobre os massacres em escolas, a série da Netflix mostra um caso supostamente realizado por um menina e que não termina em suicídio, diferente da grande maioria dos casos que vemos nos noticiários, aonde são garotos que cometem massacres e no fim cometem suicídio. Uma coisa que preocupa neste primeiro trailer divulgado é que ele foca na vida e nas relações da personagem que cometerá o atentado, relativizando a gravidade do crime e dando a entender que aconteceram coisas com ela que justificam o ato hediondo. Não fica claro que se trata de bullying ou não.

De qualquer forma, o publico alvo dessa série são jovens e adolescentes, e com certeza o tema chama muito atenção.

Independente se os pais e a família destes adolescentes concordem ou não com a forma que temas polêmicos como este estão sendo retratados, é praticamente impossível impedir o acesso a grande quantidade de conteúdo que surge na internet, muitas vezes controverso. Censurar e proibir não é uma opção, já que isso acaba tendo o efeito reverso de estimular a busca por esses conteúdos, além de que é possível (e provável) que a criança e o adolescente tenha contato através dos amigos da escola.

Assuntos como suicídio, depressão, bullying e stress pós-traumático são problemas reais, mas qual seria a maneira mais responsável de abordar esses temas? É preciso prestar atenção e realmente entender melhor quais as questões reais em torno dos conteúdos, para evitar a divulgação em massa de fakenews que desesperam os pais, como foi o caso da boneca Momo. Nesse cenário, o melhor que se pode fazer é conversar abertamente com os filhos sobre estes temas, acompanhar o que eles assistem e ouvir como eles se sentem. Apesar da triste notícia que tivemos no mês passado, a escola ainda deve ser um lugar aonde as crianças e adolescentes se sintam seguros.

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