Bombando

Por fraude, Marcelo Odebrecht ligou, jantou e compareceu a casamento de Richa

Angelo Sfair and Fernando Garcel

Ao denunciar o ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB), o Ministério Público Federal (MPF) reforçou a narrativa de como o político se aproximou do herdeiro da construtora Odebrecht, Marcelo Odebrecht. O grupo comandado pelo tucano é acusado de ter recebido R$ 7,5 milhões em vantagens indevidas por fraudar a licitação da PR-323.

A responsabilidade da duplicação da rodovia que liga Maringá a Francisco Alves, no noroeste do Paraná, foi entregue à Odebrecht em 2014. Envolvida na Lava Jato, a empreiteira não foi capaz de tocar a obra bilionária e o projeto que previa a duplicação e outras melhorias na “rodovia da morte” nunca saiu do papel.

Uma sucessão de fatos levou aos crimes, segundo o MPF. A denúncia sustenta que o relacionamento entre político e empresário foi estreitado por vários anos, com jantares, almoços e até a presença de Marcelo Odebrecht no casamento do filho do então governador do Paraná.

Aproximação

A força-tarefa Lava Jato narra que Beto Richa e Marcelo Odebrecht começaram a se aproximar em 2010, quatro antes antes da fraude à licitação denunciada. Segundo os procuradores, em princípio, os primeiro pagamentos feitos pela empreiteira ao tucano “contaram com qualquer contraprestação específica conhecida, sendo usados apenas para iniciar um bom relacionamento com o grupo político que viria a comandar o Estado nos anos seguintes”.

A denúncia sustenta que em 25 de maio de 2010 houve uma troca de e-mails para marcar um almoço entre executivos da Odebrecht, Beto Richa, Pepe Richa (irmão do ex-governador) e Deonilson Roldo (que em 2010 era o chefe de gabinete de Beto Richa, na época ainda prefeito de Curitiba).

Três meses depois, em 10 de agosto, uma nova troca de e-mails interceptada pela Lava Jato indicam a organização de um jantar na casa de Marcelo Odebrecht com a presença de Beto Richa e empresários.

Em 3 de outubro daquele ano, logo após a vitória de Beto Richa nas eleições para o governo do Paraná, Marcelo Odebrecht ligou para o tucano para parabenizá-lo.

Richa iniciou o mandato em janeiro de 2011 já com a promessa de duplicação da PR-323. O relacionamento entre o político e a Odebrecht é mantido. E confirmado, segundo a força-tarefa Lava Jato, pela presença de Marcelo ao casamento de André Richa, filho do então governador. A festa aconteceu no dia 6 de maio de 2011, no Castelo do Batel, tradicional e luxuoso espaço para eventos de Curitiba.

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Odebrecht e PR-323

De acordo com o diretor da Odebrecht e delator, Luiz Antônio Bueno Junior, a empreiteira começou a se envolver oficialmente no processo de duplicação e operação da PR-323 no início de 2013. Neste período a construtora deu início aos trabalhos de estudo para a elaboração do Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), uma fase preliminar ao processo de licitação. O investimento inicial nas obras da rodovia foi estimada em R$ 1,2 bilhão apenas nos cinco primeiros anos.

O edital foi publicado em janeiro de 2014, já com algumas alterações pedidas por emissários e representantes da Odebrecht. Antes mesmo da publicação oficial do edital, o MPF afirma que nos bastidores do governo do Paraná a Odebrecht se movimentava para obter o contrato. Como evidência do direcionamento da licitação, os procuradores também apresentam o extrato de 33 contatos telefônicos entre representantes do governo e da empreiteira.

Após uma série de encontros, reuniões e mudanças no processo licitatório, o contrato de concessão da PR-323 foi assinado no dia 5 de setembro de 2014.

Acusados

Além do ex-governador Beto Richa (PSDB), foram denunciados o irmão dele, Pepe Richa, o primo dele, Luiz Abi Antoun, e outras quatro pessoas. São apontados os crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, fraude licitatória e lavagem de dinheiro. O grupo teria recebido cerca de R$ 7,5 milhões em vantagens indevidas.

Segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), os denunciados fraudaram a licitação em favor do Consórcio Rota das Fronteiras, composto, entre outras, pela empresa Tucumann Engenharia e pela Odebrecht. A investigação apontou o contato entre empresários ligados às empresas integrantes do consórcio e os agentes públicos antes mesmo da publicação das diretrizes para a licitação ganha posteriormente pelo consórcio.

A investigação aponta que o executivos da Odebrecht ofereceram pelo menos R$ 4 milhões a Denilson Roldo, no interesse de Beto Richa, Pepe Richa e Ezequias Moreira e, para viabilizar o recebimento dissimulado de valores, Dirceu Pupo Moreira e Luiz Abi Antoun atuaram como intermediários.

Dentro deste valor prometido pelos empresários, perícias dos sistemas DROUSYS e MyWebDay, da Odebrecht, revelaram no intervalo de dois meses ao longo de 2014, pagamentos superiores a R$ 3,5 milhões para o codinome “Piloto”, utilizado para identificar o ex-governador.

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Denúncia

  • Beto Richa – Denunciado pelos crimes de fraude em licitação, corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
  • José Richa Filho – Denunciado pelos crimes de fraude em licitação, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
  • Luiz Abi Antoun – Denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
  • Rafael Gluck – Denunciado pelos crimes de fraude em licitação, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
  • José Maria Ribas Mueller – Denunciado pelos crimes de fraude em licitação, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
  • Ezequias Moreira – Denunciado pelos crimes de fraude em licitação, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
  • Dirceu Pupo Ferreira – Denunciado por crimes de lavagem de dinheiro.

Defesas

Em nota, a defesa de Beto Richa reitera apenas que o ex-governador não cometeu irregularidades. “Defesa reafirma que seu cliente não cometeu nenhuma irregularidade, e que sempre esteve à disposição para prestar esclarecimentos. Reiterando assim, a inocência do ex-governador e a confiança no Poder Judiciário”, diz.

O Paraná Portal tenta contato com as defesas dos demais denunciados.

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